O vazio Bolsonaro

Você já percebeu como a política brasileira é rápida em trocar de enredo? Até ontem, a direita parecia sinônimo de Bolsonaro. Hoje, com condenações e decisões judiciais que devem barrar o clã das urnas, a cadeira continua reservada, mas sem dono. É o vazio Bolsonaro — e não da direita — que provoca a grande disputa do momento.

Afinal, a direita não está órfã. Ratinho Jr., governador do Paraná, é um nome consistente, de fala mansa, estilo gestor e trânsito com o centro. Amparado pela força midiática do pai e por uma imagem de administrador competente, ele poderia ser a aposta perfeita do Sul para o Brasil. A dúvida é se já chegou a hora dele.

Em Minas, Romeu Zema tenta ocupar o espaço com a bandeira de bom administrador. Colocou ordem nas finanças e ganhou prestígio como alguém que não se curva ao toma-lá-dá-cá. Mas esbarra numa limitação do partido Novo: sem alianças, não há vitória nacional. A técnica pode impressionar, mas eleição presidencial exige política, e muita.

Ronaldo Caiado, velho conhecido, é aquele tipo de político que sempre encontra um palco. Agora se veste de conservador, surfando a onda do eleitorado que rejeita a esquerda. Mas quem acompanha sua trajetória sabe que ele muda de figurino conforme a plateia. A questão é: até onde o Brasil está disposto a confiar em um camaleão?

Enquanto isso, Tarcísio de Freitas vai se firmando em São Paulo. Competente como ministro e agora como governador, carrega o selo Bolsonaro sem ser Bolsonaro. Tem diálogo com partidos de centro e até centro-esquerda, algo raro no atual cenário. Não por acaso, já aparece como o nome mais viável para unir a direita em torno de um projeto nacional.

O que chama atenção é como a direita, ao contrário da esquerda, não se agarra a um único nome como se fosse “patrimônio moral”. Lula, para a esquerda, virou intocável. Já a direita parece mais disposta a seguir em frente, sem “bandido de estimação”. Talvez esteja aí uma diferença fundamental: quando um nome cai, outros se levantam.

Mas isso não significa que o caminho esteja livre. A insegurança jurídica, com leis reinterpretadas ao sabor da conjuntura, mantém o país em alerta. A sensação é de que as regras podem mudar de acordo com quem está jogando — e isso mina a confiança de todos, não só da direita.

No fim das contas, o vazio não é da direita, mas do Bolsonaro. E essa cadeira, antes ocupada de forma ruidosa e carismática, agora virou objeto de disputa entre gestores, camaleões e estrategistas. Quem vai herdar esse espaço? Talvez seja a pergunta mais importante antes da música parar.

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Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com