Você já reparou como algumas tragédias ganham holofote imediato enquanto outras seguem morrendo no escuro, sem hashtag, sem passeata, sem nota de repúdio? A morte do cão de rua Orelha, em Florianópolis, não foi só um crime bárbaro contra um animal indefeso. Foi também um espelho incômodo daquilo que a gente prefere não encarar quando olha para a própria sociedade.
Não há muito o que discutir sobre o ato em si: foi cruel, covarde e repulsivo. Quatro menores de idade massacraram um cachorro indefeso, numa demonstração de frieza que assusta qualquer pessoa minimamente humana. O choque é legítimo. A revolta também. O problema começa quando a indignação vira espetáculo — e a reflexão, figurante.
Em poucas horas, o debate saiu do crime e escorregou para o campo político, social e até regional. Como os autores são menores, ricos e brancos, logo surgiram campanhas de linchamento virtual, divulgação de nomes, ataques a famílias e tentativas de responsabilizar até os negócios dos pais. Não se buscava justiça; buscava-se catarse. Um vilão bem definido, pronto para ser consumido nas redes.
Enquanto isso, quase 50 mil homicídios por ano no Brasil seguem sem solução, sem comoção coletiva, sem trending topic. Onde está essa fúria toda quando um trabalhador é morto num assalto? Quando um jovem é executado na periferia? Quando um latrocínio vira apenas mais um número na estatística? A pergunta não é sobre diminuir o valor da vida animal — é sobre por que valorizamos tão pouco a vida humana anônima.
Não me venham dizer que comparar é minimizar. Comparar, aqui, é expor a incoerência. Um roubo de celular deveria mobilizar o Estado com a mesma rapidez que a morte de um cachorro. Um assassinato deveria provocar a mesma indignação moral que vimos no caso Orelha. Mas não provoca. Porque não rende engajamento. Porque não viraliza. Porque não cabe bem numa narrativa simples de mocinhos e vilões.
Há ainda o bônus da generalização fácil. De repente, Santa Catarina inteira virou ré num tribunal moral improvisado. Curioso, porque quando o índio Galdino foi queimado vivo por jovens de boa condição social em Brasília, ninguém resolveu demonizar a capital federal ou seus moradores. A régua moral muda conforme o endereço e a conveniência do discurso.
No meio do barulho, ressurgiu o debate da maioridade penal. E aí vale a pergunta incômoda: se aos 16 anos é permitido votar, casar, trabalhar, ser emancipado e decidir o futuro de um país, por que não responder criminalmente por atos de extrema gravidade? Não é uma resposta simples — mas fingir que a pergunta não existe é desonestidade intelectual.
O fato é que nossas bandeiras raramente são levantadas pelo que é estrutural. Defendemos o que é midiático. Combatemos o que dá visibilidade. A indignação brasileira não é constante; é seletiva. E isso diz muito mais sobre nós do que sobre os autores do crime.
Orelha virou mártir. Não só da crueldade humana, mas da hipocrisia coletiva. Talvez o maior legado desse caso não seja apenas a punição dos culpados — necessária, sim — mas a chance de a gente se perguntar por que escolhe tão bem quem merece nossa revolta. E, mais difícil ainda: quem fica de fora dela.

