Você já reparou como a gente se acostumou a ver a lei como um enfeite? Ela está lá, escrita com pompa, citada em discursos e juramentos, mas raramente vivida de verdade. A cada escândalo, operação ou manchete sobre corrupção, violência ou impunidade, a sensação é a mesma: a lei existe — mas só pra alguns. E, enquanto isso, o resto do país vai se virando com a tal “lei da sobrevivência”.
A operação policial no Rio de Janeiro, no fim de outubro, escancarou esse dilema. Foi chamada de “Operação Contenção” e envolveu mais de 2.500 agentes, dezenas de prisões, apreensão de armas, drogas e, claro, um saldo trágico de 121 mortos. As autoridades comemoraram o sucesso, destacando que nenhum civil inocente foi ferido. Mas 121 vidas perdidas — entre elas quatro policiais — continuam ecoando a pergunta que ninguém gosta de responder: até que ponto o Estado age dentro da própria lei quando precisa retomá-la à força?
Aristóteles, há mais de dois mil anos, já avisava: “A lei é inútil se não for observada.” E talvez esteja aí o retrato mais cruel do Brasil moderno. Temos leis para tudo — de trânsito a tecnologia, de costumes a costumes políticos —, mas aplicá-las com coerência parece luxo de país escandinavo. Criamos um labirinto jurídico onde até quem tenta cumprir a regra se perde no caminho.
Enquanto isso, a impunidade faz o papel de guia turístico: mostra o atalho, o jeitinho, a brecha. A cada delação esquecida, a cada crime prescrito, a cada burocracia que transforma justiça em novela, o país reforça a lógica de que a lei é uma peça de ficção. Bela, bem escrita, mas sem final feliz.
Nos morros do Rio, o crime organizado tomou para si o que o Estado abandonou: o monopólio da autoridade. Ali, quem dita a lei é quem tem o fuzil — e, ironicamente, essa “lei” funciona, porque é observada. Brutal, injusta, mas cumprida. Já o Estado, que deveria representar a justiça e a ordem, aparece de helicóptero, desce atirando e some até a próxima operação. O resultado? A cada incursão, o crime volta mais forte, mais estruturado, mais senhor do próprio território.
No fundo, o problema é antigo e repetido: não falta lei no Brasil — falta Estado onde a lei não chega. E onde o Estado falha, alguém ocupa o vácuo. Seja o traficante, o miliciano, o político esperto ou o cidadão que acha que jogar o lixo pela janela “não faz mal”. É o mesmo princípio, só muda o calibre da transgressão.
O mais curioso é que, quando a lei funciona, a gente percebe. Foi assim com a Lei Seca, que reduziu acidentes porque pegou no bolso e no ponto fraco: ninguém quer perder a carteira. A regra, quando aplicada de verdade, transforma comportamento. Quando é seletiva, só reforça o cinismo coletivo de que “nada muda mesmo”.
Talvez Aristóteles não imaginasse que, séculos depois, sua frase serviria tão bem ao Brasil de 2025. Um país com uma das Constituições mais completas do planeta — e uma das práticas mais inconsistentes. Aqui, a lei é bonita no papel e invisível na rua. É o manual que ninguém lê, o contrato que ninguém cumpre, a promessa que ninguém fiscaliza.
Talvez seja hora de inverter a lógica: antes de criar novas leis, deveríamos aprender a respeitar as que já existem. Porque, no fim das contas, o problema não é a falta de norma — é a falta de vergonha em descumpri-la. E você, o que acha: a lei ainda vale alguma coisa, ou já virou só parte da paisagem?

