Quando o escândalo vira paisagem

Você já reparou que, nos últimos anos, a gente ouve um escândalo político atrás do outro e… nada acontece dentro da gente? É como se o país tivesse desenvolvido uma blindagem emocional, uma espécie de casco social que impede que qualquer indignação passe dessa primeira camada da pele. A notícia chega, entra pelo ouvido, bagunça dois neurônios e, antes do almoço, já virou só mais um capítulo do noticiário que a gente consome entre a novela e a previsão do tempo.

Mas o curioso — ou trágico — é que, enquanto a gente acha que “não é comigo”, é justamente ali que começa o impacto direto na nossa vida. Escândalo no alto escalão? Pode reparar: alguns meses depois, o efeito colateral chega pela porta da frente, disfarçado na conta de luz, no preço do arroz, no buraco da rodovia que cresce mais rápido que a obra pública que nunca vem.

E é aí que está o ponto que a gente tem normalizado sem perceber: a desfaçatez virou método, e nós viramos público cativo de um espetáculo que não termina nunca.

Sabe quando a gente vive perto de uma rodovia e, com o tempo, nem escuta mais o barulho dos caminhões? A política brasileira virou isso: um ruído constante.
Quando um ex-presidente é condenado por tentativa de golpe, deveria ser um terremoto democrático. Mas vira debate de bar, meme de rede social. A pauta passa tão rápido que a sensação é de que não tocou no chão.

E, enquanto a gente se distrai com o barulho, a engrenagem que realmente afeta nosso dia a dia gira em silêncio. Selic alta? É crise política. Inflação persistente? É instabilidade. Orçamento remendado e negociado no varejo? É o preço da “governabilidade”. O escândalo é barulho; o prejuízo é vibração subterrânea.

Polarização, em si, não é necessariamente o vilão da história. Em um país saudável, ela deveria ser sobre ideias, projetos, modelos de sociedade.
Mas, no Brasil, ela virou uma cortina de fumaça que faz a gente brigar por narrativa enquanto quem deveria responder por seus atos se esconde atrás do discurso moralista de sempre.

E aqui está a ironia mais amarga: o eixo verdadeiro que deveria nos dividir — honestidade versus desfaçatez — é justamente o único que quase ninguém quer encarar.

Enquanto a torcida grita “meu lado é o certo”, o que sobra na prática é um sistema que, ano após ano, administra interesses privados com a naturalidade de quem já sabe que a indignação pública dura menos que um ciclo de notícias.

E aí, quem paga a conta? Você, eu, a cidade inteira.
O desvio não aparece como cifra; aparece no posto de saúde sem médicos, na fila da creche, no ônibus que atrasa porque a estrada está esburacada.
A irresponsabilidade política não vem impressa no Diário Oficial; vem no preço do feijão, no carnê de prestação, na sensação de que “tudo está mais caro e ninguém sabe explicar direito por quê”.

É o tal imposto invisível que a gente paga por escândalos que juramos ter esquecido.

A parte mais cruel dessa história é perceber que a classe política entendeu, melhor do que nós, a dinâmica da nossa pressa. Eles sabem que indignações expiram rápido. Sabem que a memória pública se cansa antes da justiça terminar o primeiro parágrafo. Sabem que, em poucos dias, o noticiário muda, o foco troca, e a vida segue — mesmo que mais cara, mais difícil e mais frágil.

E, assim, seguimos nós: convivendo com o absurdo com a mesma naturalidade de quem aceita a goteira no telhado porque “sempre foi assim”.

Talvez seja hora de olhar para isso com mais calma. De voltar a ouvir o barulho da rodovia. De lembrar que escândalo não é paisagem: é alerta.

E você, o que acha?

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Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com