Você já percebeu como a gente anda engolindo sapo com a naturalidade de quem toma café morno? Tem coisa que, de tão repetida, virou paisagem. Decisão polêmica aqui, privilégio acolá, escândalo que dura três dias e depois some do noticiário como se fosse chuva de verão. Mas e se o problema for justamente esse: ter se acostumado?
No último dia 1º de março, nas manifestações do Acorda Brasil, na Boca Maldita, em Curitiba, o professor Luiz Fernando Mazanek resumiu em uma frase o que ecoava entre cartazes e discursos: “Eu não acho normal”. Pode parecer simples. Não é. Quando alguém precisa dizer em voz alta que não acha normal um juiz soltar um criminoso grave ou um tribunal ampliar seus próprios poderes, é porque o senso de normalidade já está seriamente avariado.
A indignação que levou tanta gente às ruas não nasceu do nada. Ela vem sendo fermentada há anos por decisões judiciais que soam desconectadas da realidade do cidadão comum, por uma classe política que se protege com uma habilidade quase olímpica e por um sistema que parece sempre mais ágil para socorrer os seus do que para atender o contribuinte. O brasileiro não é especialista em Direito Constitucional, mas entende quando algo não fecha.
Quando Mazanek questiona a soltura de criminosos em audiências de custódia ou a sensação de impunidade em casos rumorosos, ele não está fazendo um tratado jurídico. Está verbalizando uma percepção popular: a de que há dois pesos e duas medidas. O problema é que, quando essa percepção se espalha, corrói a confiança nas instituições — e democracia sem confiança vira um prédio com rachadura na base.
E não é só o Judiciário que entra na roda. O sistema político também acumula sua coleção de “não é normal”. Temos mais de 5.500 municípios, milhares de vereadores, deputados, senadores, uma máquina pública cara e pesada. Pagamos impostos dignos de país nórdico e recebemos serviços que, muitas vezes, não resistem a uma semana sem remendo. Em cidades do interior como a nossa, a conta chega na forma de hospital lotado, estrada esburacada e escola pedindo socorro.
Claro que há exageros no calor da indignação. Falar em “no voto ou no braço”, por exemplo, é flertar com um atalho perigoso. Democracia não se fortalece na base do grito mais alto, mas da regra respeitada. Ainda assim, ignorar o sentimento que move essas frases é um erro estratégico. Quando parte expressiva da população passa a duvidar do processo eleitoral, da imparcialidade dos tribunais ou da efetividade do Congresso, o problema não é só de narrativa — é de credibilidade.
Também é preciso cuidado para não transformar críticas legítimas em generalizações apressadas. Nem todo juiz é leniente, nem todo político é corrupto, nem toda decisão impopular é ilegal. O debate sério exige separar indignação de simplificação. Mas exigir coerência, transparência e responsabilidade dos três Poderes não é radicalismo; é cidadania básica.
Talvez o ponto central seja este: a maioria dos brasileiros não quer ruptura, quer respeito. Quer entender por que decisões que parecem óbvias para o cidadão comum ganham contornos tão complexos nos tribunais. Quer saber por que o ajuste fiscal quase sempre começa pelo lado de quem paga imposto, nunca pelo lado de quem gasta. Quer, no fundo, voltar a acreditar que as regras valem para todos.
A pergunta que fica é desconfortável, mas necessária: estamos normalizando o que deveria nos chocar ou estamos nos deixando levar por uma indignação que precisa ser melhor direcionada? Talvez seja hora de olhar para o sistema político e jurídico com menos paixão cega e mais cobrança lúcida. Porque, no fim das contas, não é sobre esquerda ou direita. É sobre confiança. E confiança, quando quebra, não se recompõe com discurso — só com mudança real. E você, ainda acha tudo isso normal?


