Coluna Bate Papo Informal

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Quatro pesos-pesados, um cinturão, zero regras

Lula, Flávio Bolsonaro, Pablo Marçal e Renan Santos. Se isso fosse um cartaz de luta livre, ninguém duvidaria — tem o veterano que não larga o cinturão, o herdeiro tentando provar que o sobrenome ainda vale título, o coach que vendeu autoestima e agora quer vender país, e o estreante do MBL que troca microfone de podcast por palanque. A única diferença é que aqui, quando alguém sai carregado de maca, é a opinião pública que perde.

Lula chega como quem já sabe todos os golpes do ringue — literalmente e figurativamente. Reeleição é terreno conhecido: discurso rodado, adversário testado, manual de sobrevivência decorado. O risco dele não é ser surpreendido pelo argumento do outro lado. É a plateia bocejar no terceiro round por já ter visto esse combate antes.

Flávio Bolsonaro entra numa posição rara: candidato por ausência, não por escolha própria da militância mais barulhenta. Com o pai preso e inelegível, coube ao filho carregar a herança — e herança, no bolsonarismo, costuma vir com dívida embutida de expectativa. Ele terá que provar que é candidato e não apenas Custódio.

Pablo Marçal é o nome que garante que nenhuma sessão de debate vai precisar de intervalo comercial: ele mesmo cria a comoção. Declarou patrimônio de R$ 7,4 bilhões e chamou de “erro de digitação” — o tipo de deslize que a maioria dos brasileiros não comete porque não tem zero suficiente para errar. Some a isso a novela jurídica da candidatura, indo e voltando de partido por liminar, e temos o competidor que entra no ringue sem saber ainda se o juiz vai deixar ele lutar.

Renan Santos é a cadeira vazia mais estranha da mesa: estreia em cargo público depois de anos comandando manifestação de rua pelo MBL — trocou megafone por microfone oficial. A pergunta que ninguém faz em voz alta é se ele sabe administrar governo tão bem quanto sabe organizar ato. Mobilizar multidão e mobilizar orçamento público são esportes diferentes, mesmo que pareçam o mesmo treino.

Juntos, os quatro prometem uma coisa que a política brasileira raramente entrega de graça: espetáculo garantido. Vai ter ataque pessoal disfarçado de crítica ideológica, vai ter proposta “revolucionária” que é a mesma de sempre com nome novo, e vai ter — pode apostar — pelo menos um momento em que um vai chamar o outro de mentiroso usando dado que também não confere.

A graça — e o perigo — é que rir da eleição não isenta ninguém de votar nela. Cada cadeirada verbal, cada climão de debate, cada “erro de digitação” bilionário está decidindo quem vai assinar orçamento, indicar ministro e responder por decisão que chega até aqui, na Lapa, em forma de obra que sai do papel ou fica só na promessa.

No fim, a gente vai rir bastante nos próximos meses — e é saudável rir de política, porque leva ela a sério de forma mais honesta do que fingir seriedade o tempo todo. Mas separado do humor tem escolha real: quatro perfis, quatro formas diferentes de exercer poder, e só uma cadeira. A pergunta que fica não é quem vai ganhar a briga de palco. É quem vai sobrar depois que as luzes apagarem — e o que vai sobrar pra gente.

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


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