Coluna Bate Papo Informal

Um espaço livre para comentários da editoria do Jornal, aborda os mais diversos temas.

Quem defende a miséria

Denunciar a pobreza virou crime. Pergunte-se quem fez essa lei.

Publique qualquer coisa sobre pobreza no Brasil que não seja elogio — que questione, que incomode, que proponha emancipação em vez de benefício — e observe o que acontece. Em menos de 24 horas aparecem os defensores. Não dos pobres. Da pobreza.

Nas quatro edições anteriores desta série, discutimos como o Brasil fabricou ignorância, cultivou dependência, romantizou a miséria como virtude e entregou um inimigo permanente para que ninguém olhasse para o responsável real. O que não dissemos — porque precisávamos esperar para mostrar — é que existe um mecanismo de defesa para tudo isso. Um anticorpo político que é acionado toda vez que o sistema é questionado. Esse anticorpo tem cara, tem voz e tem interesse.

Observe com atenção quem ataca quando a miséria é denunciada. Raramente é o miserável. O pobre real não tem tempo, energia nem estrutura para organizar indignação nas redes sociais contra quem expõe sua condição. Quem ataca são os guardiões da narrativa — intelectuais de fim de semana, militantes de perfil verificado, políticos que vivem de mandato e acadêmicos que construíram carreira inteira sobre a romantização do que nunca viveram. Gente que nunca passou fome defendendo com precisão cirúrgica o direito de outros continuarem passando.

O mecanismo é conhecido mas raramente nomeado. Inverteram os sinais do debate. Denunciar a pobreza virou crueldade. Propor emancipação virou elitismo. Questionar o benefício virou desumanidade. E defender o status quo — esse sim — virou compaixão, sensibilidade, consciência social. Quem quer mudar é o vilão. Quem quer preservar é o herói. Num país onde essa inversão funciona, o sistema nunca precisa se justificar — só precisa atacar quem o questiona.

A caça às bruxas moderna não persegue quem mantém a miséria. Persegue quem a expõe. O alvo não é o político que precisa do pobre dependente para se reeleger. É o jornalista, o economista, o professor, o pai que conta que foi ao banco e ouviu um conselho absurdo dito como normalidade. Qualquer um que coloque em palavras o que o sistema prefere que fique sem nome. Porque colocar nome é o primeiro passo para cobrar solução — e solução é o que esse arranjo não pode entregar sem se destruir.

O mais revelador não é o ataque em si. É a velocidade. A organização. A uniformidade do vocabulário usado — as mesmas palavras, os mesmos enquadramentos, a mesma acusação de insensibilidade disparada de perfis diferentes como se tivessem combinado. Porque combinaram. Não necessariamente numa reunião — combinaram numa narrativa compartilhada, construída ao longo de décadas, que todos aprenderam a repetir no momento certo. O sistema não precisa dar ordens. Ele já ensinou o reflexo.

Encerro esta série com a observação mais simples e mais incômoda de todas: se denunciar a miséria provoca mais reação do que a miséria em si — algo está profundamente errado. Não com quem denuncia. Com quem prefere o silêncio.

O pobre que você diz defender não te pediu para calá-lo. Quem pediu foi quem precisa que ele continue assim.

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com