Quem é vítima de quem, afinal?

Você já reparou como virou quase automático justificar o injustificável? Como se, diante de um crime, a pergunta deixasse de ser “quem fez?” e passasse a ser “o que fizeram com ele para que ele fizesse isso?” Parece detalhe — mas não é. É uma inversão que muda tudo.

A ideia de que o criminoso é, antes de tudo, uma vítima da sociedade ganhou força nos discursos, nos debates e até nas rodas de conversa mais despretensiosas. E claro, há contextos, há desigualdades gritantes, há histórias duras. Negar isso seria preguiça intelectual. Mas transformar isso em desculpa universal é outra coisa — e perigosa.

Porque, convenhamos: a esmagadora maioria das pessoas, ricas ou pobres, cresceu enfrentando algum tipo de dificuldade. Falta de dinheiro, perdas, traumas, ausência, injustiças. Ainda assim, essa mesma maioria nunca roubou, nunca matou, nunca decidiu que o sofrimento do outro era um caminho aceitável. Essa maioria silenciosa é a sociedade — aquela que acorda cedo, paga suas contas e tenta, com todas as limitações, viver dentro de algum mínimo de ética.

Então em que momento a gente começou a tratar exceção como regra? Em que ponto virou confortável explicar o crime como consequência inevitável do meio, ignorando que milhares — milhões — vivem no mesmo meio e escolhem não cruzar essa linha?

Há um risco enorme nessa narrativa: ela dilui a responsabilidade individual. E quando responsabilidade vira algo negociável, o resultado é previsível — ninguém mais é plenamente culpado, logo, ninguém é plenamente responsável. E se ninguém é responsável, a sociedade inteira vira refém de uma lógica torta.

Isso não significa ignorar políticas públicas, educação, desigualdade ou abandono estatal. Pelo contrário: tudo isso importa, e muito. Reduzir desigualdade reduz violência, sim. Mas não porque a pobreza fabrica criminosos em série, e sim porque uma sociedade mais organizada consegue identificar, conter e responsabilizar melhor quem escolhe violar as regras básicas de convivência.

E aqui entra um ponto que muita gente evita encarar: existem pessoas que não estão simplesmente “reagindo ao meio”. Existem indivíduos que fazem do outro um objeto, que não demonstram empatia, culpa ou remorso. Não é confortável admitir isso, porque desmonta a ideia romântica de que todo comportamento humano é corrigível com oportunidade e acolhimento. Nem sempre é.

Enquanto a gente insistir em tratar todos os casos como se fossem iguais, vamos continuar errando o diagnóstico — e, pior, errando o remédio. Porque uma coisa é combater desigualdade. Outra, bem diferente, é relativizar o crime.

No fim das contas, talvez a pergunta precise ser ajustada. Não é “quem são as vítimas da sociedade?”, mas “quem está pagando o preço dessa confusão?”. E a resposta não é difícil: é o cidadão comum, que cumpre regras e vê, cada vez mais, essas regras sendo flexibilizadas para quem decidiu ignorá-las.

Talvez esteja na hora de encarar essa discussão com menos romantismo e mais honestidade. Nem todo erro é fruto do meio. Nem toda escolha pode ser terceirizada. E nem toda vítima é quem a narrativa insiste em mostrar. E você, está confortável com essa conta sendo dividida assim?

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Aramis José Gorniski


Entre em contato com Aramis José Gorniski: aramizinho@gmail.com