Coluna Bate Papo Informal

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Quem faz o jogo em 2026 não é quem você vai vencer

Enquanto a discussão se trava entre dois nomes, o poder de verdade já escolheu não escolher

Você já reparou como toda campanha presidencial promete o mesmo antes de começar: desta vez vai mudar? A gente ouviu essa frase de novo essa semana, numa fila de banco — três pessoas que nem se conheciam direito, esperando a vez, e a conversa emendou sozinha na eleição de 2026. O que ficou não foi otimismo. Foi cansaço. “Não vejo a hora de isso passar”, disse uma delas, resumindo em uma frase o que muita gente sente e poucos admitem em voz alta.

O interessante é que esse cansaço não vem de quem não se importa. Vem de quem prestou atenção demais, tempo demais, e viu o resultado se repetir. Entra governo, sai governo, e a vida de quem trabalha, paga imposto e espera na fila do banco não muda na proporção do discurso. Uma delas foi direta: o presidente, “no frigir dos ovos”, é só uma figura. Quem manda, na visão dela, são outros interesses — e aí entram os bancos, o mercado, quem financia a festa toda e sai satisfeito, seja qual for o resultado nas urnas.

Teve também quem apostasse em nomes específicos para 2026 — Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas foram citados como esperança de um lado. Do outro, a permanência de Lula foi tratada por parte do grupo como algo já dado, quase resolvido antes da eleição acontecer. Não é papel deste jornal dizer quem tem razão nessa aposta. Mas vale registrar: quando um lado já acha que ganhou e o outro já acha que foi trapaceado, o problema deixou de ser o candidato. O problema é a confiança que sumiu no meio do caminho.

E é aqui que a conversa de fila chegou a um ponto que merece mais atenção do que costuma receber: o Centrão. Enquanto esquerda e direita brigam com bandeira erguida, tem um bloco que não hasteia bandeira nenhuma — porque não precisa. Se abraça a qualquer governo que esteja no poder, e é justamente por isso que sobrevive a todos eles. Um dos três resumiu com uma imagem difícil de esquecer: o extremismo dos dois lados são só “enfeites” de um jogo que continua sendo decidido no centro, fisiológico, sem ideologia fixa, só interesse.

Isso devia incomodar mais do que incomoda. Porque enquanto o debate público se organiza em torno de “Lula ou Bolsonaro”, “esquerda ou direita”, a real disputa por cadeiras, verbas e nomeações segue um roteiro que não depende de quem senta na cadeira principal. O Centrão negocia com quem estiver lá. Sempre negociou.

O risco, apontado com clareza por quem estava naquela fila, é que a polarização sirva justamente para distrair. “Povo brigando com povo” por uma disputa que não se resolve na conversa de família ou no grupo de WhatsApp, enquanto quem deveria ser cobrado — o Congresso, os senadores, os que decidem de fato o rumo do orçamento — segue fora do centro das atenções. Massa de manobra foi a expressão usada. Dura, mas difícil de contestar quando se olha para como o debate público tem se organizado nos últimos ciclos eleitorais.

Não é pessimismo dizer isso. É querer que o município, e o país, cobrem na direção certa. Se 2026 vai trazer mudança de verdade, ela não vai aparecer só no nome que ganhar a disputa pelo Planalto. Vai aparecer — ou não — em quem a gente elege para deputado, para senador, para vereador, e em quanta atenção a gente continua dando depois que a urna fecha e a novela recomeça.

A pergunta que fica não é só “em quem eu vou votar para presidente”. É: você vai continuar de olho depois que a eleição passar, ou vai voltar para o piloto automático até 2030? Porque enquanto a gente briga pelo nome de cima, o resto do tabuleiro segue jogando sem pressa nenhuma. Da próxima vez que estiver numa fila qualquer, repare: essa conversa provavelmente já está rolando ao seu lado.

Aramis José Gorniski

Aramis José Gorniski


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