Batata dá rasteira previsível no produtor

Com produção 17% maior, Paraná registra queda de 80% no preço ao produtor. Setor tenta adiar colheita, deixando produto enterrado mais tempo

 

Os produtores de batata do Paraná tomaram uma rasteira do mercado depois de aumentar em 14% a área plantada na primeira e principal safra – a das águas, colhida de dezembro a março. A animação com os preços remuneradores na temporada passada se transformou em prejuízo com a colheita 17% maior que a anterior.

O indicador mensal da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab) mostra que o preço recebido pelo agricultor do estado caiu mais de 80% em 12 meses, saindo de R$ 56 em janeiro de 2010 para menos de R$ 10 por saca de 50 quilos atualmente. O valor está abaixo do custo de produção – estimado em R$ 15 por saca, segundo o setor produtivo – e mesmo assim falta comprador no mercado.

“Se me ofertassem R$ 10 por saca, eu vendia agora. Mas nem a esse preço tem negócio”, reclama Ambrósio Schinda da Silva, dono de sete hectares de terras em Contenda, antiga capital da batata. De acordo com a Secretaria Estadual da Agricul­tura (Seab), o Paraná é responsável pela segunda maior produção de batata do país, com cerca de 730 mil toneladas colhidas anualmente nas safras das águas, da seca e de inverno. O município de Contenda responde por aproximadamente 6% do total produzido no estado, com volume estimado em 35 mil toneladas.

A ausência de compradores tem feito com que grande parte dos batateiros mantenha a safra no campo, como é o caso de Silva, que está com praticamente toda a produção enterrada no solo. Conforme o último levantamento da Seab, 30% da área paranaense ainda não foram colhidos.

O pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP) João Paulo Bernardes Deleo afirma que todas as regiões do Brasil aumentaram a área cultivada com batata, o que agrava o excesso de oferta. A melhora dos preços, segundo ele, está condicionada, portanto, ao fim da safra atual, prevista para o final de abril e início de maio. O especialista sugere que o produtor faça uma reserva financeira em anos de bons preços para conseguir enfrentar situações de desvalorização do produto. “Em ciclo de baixa, o produtor tem poucas alternativas. É importante ter em mente que a área de hortaliças é de alto risco de preços e comum oscilação de oferta”, analisa.

Uma alternativa para amenizar esse quadro que sazonalmente atinge os batateiros de todo o país está ligada ao consumidor, que ainda prioriza a batata lavada e com boa aparência. Os agricultores, porém, fazem um alerta: o processo de secagem e lavagem estimula a brotação da batata e diminui o tempo útil de consumo. “Se for apenas escovada depois de colhida, a batata pode durar até 60 dias em ambiente adequado de conservação”, revela Félix Olech, produtor e cerealista. A batata branca, mais perecível, reduz o poder de barganha do produtor.

Olech recomenda que o vegetal seja lavado somente na hora de ser consumido e sustenta que a beleza do produto está proporcionalmente atrelada a um maior uso de agrotóxicos no campo. “Nem sempre a batata mais bonita é a melhor ou a mais saudável. O que vale é o que está por debaixo da casca”, reforça.

Please follow and like us: