Morde e assopra

Desde o começo do ano tenho acompanhado as inúmeras polêmicas do novo governo. No começo até fiquei um pouco desapontado, admito. Mas friso: desapontado é diferente de arrependido – não dá para se arrepender de ter apoiado Bolsonaro sabendo quais eram os outros candidatos.

Mas confesso que esperava uma desenvoltura melhor por parte do governo, ainda mais com nomes de peso como Paulo Guedes e Sérgio Moro.

As últimas polêmicas que surgiram foram a liberação do porte de fuzis e a manifestação agora do dia 26. E estas me fizeram perceber um certo “modus operandi”: em quase todas as ações, o governo primeiro larga uma notícia bombástica, com efeitos bastante grandes, e em seguida negocia e o efeito final é bem mais centrado que o noticiado no primeiro momento.

Ainda não consegui definir se isso é resultado de um atrapalhamento geral, como quer fazer parecer toda a grande mídia, ou algum tipo de estratégia.

Se for trapalhada, esperemos que nossos governantes percebam e corrijam, pois será muito constrangedor para todos nós como brasileiros.

Mas por outro lado, e se for uma estratégia? Analisem bem: existem sim seres pensantes no governo, e sempre existiram (mesmo nos governos petistas). Só que agora estamos numa fase onde o executivo não quer mais barganhar com o legislativo como sempre foi feito, e portanto é necessário encontrar outra forma de trabalho em conjunto.

No final, uma estratégia pode ser justamente a tentativa de propor “100 para receber 50”. Ou até se preferir, o famoso “morde e assopra”.

Ao propor coisas drásticas, todos os contrários se manifestam e ficam às claras, permitindo um trabalho mais pontual de convencimento. O exemplo das armas parece ser perfeito. Num primeiro momento permitia até o porte de fuzis pela população. Depois das óbvias reclamações, chegou-se a um meio termo. Só que se fosse proposto diretamente o tal “meio termo”, ele seria criticado e cairia por terra.

As manifestações do dia 26 começaram com algo vergonhoso: o incentivo a um golpe de estado. Imediatamente um monte de gente se pôs contrário, e aos poucos a manifestação começou a defender pautas mais centradas e necessárias. Aliás, antes mesmo da manifestação ela já está gerando resultados – esta semana a medida provisória que reduz os ministérios, assinada pelo Bolsonaro lá em janeiro, foi aprovada. Como uma medida provisória tem validade limitada, se não fosse votada, em breve o governo seria obrigado a recriar os 29 ministérios que existiam na época do Temer. Claro que os deputados queriam isto, pois o governo seria obrigado a criar vários cargos de comissão – que teriam que ser distribuídos a aliados. A simples notícia das manifestações fez com que o assunto fosse posto em pauta e aprovada a redução proposta.

Voltando um pouco, temos a polêmica do contingenciamento dos gastos no ensino superior. Num primeiro momento teve muita gente do governo cantando de galo, fazendo que ia fazer várias coisas grandes, etc, etc. No final, o que teve mesmo foi um contingenciamento – e não corte – de 3%, e não dos 30% iniciais. Morde e assopra.

Estou curioso para saber quais serão as próximas polêmicas. Do jeito que está indo, é de se esperar que teremos duas a três grandes discussões por semana até o final deste governo.

 

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