DO DIZER A VERDADE

A ideia da verdade viva é perigosa e provoca a suspeita de que a verdade possa e deva ser adaptada à respectiva situação, o que faria com que o conceito de verdade se diluísse, completamente; e, mentira e verdade se aproximassem a ponto de não poderem ser mais distinguidas. Também aquilo que dissemos sobre o necessário conhecimento da realidade poderia ser mal interpretado no sentido de que o grau de verdade que eu estou disposto a dizer à pessoa próxima dependeria duma postura calculista ou pedagógico-egoísta. É importante atentar para este perigo e sutileza quer do diabo, quer da carne, quer do mundo. A possibilidade de enfrentá-lo, no entanto, não pode consistir em outra coisa do que no cuidadoso discernimento dos respectivos conteúdos e limites que a própria realidade prescreve à afirmação para torná-la verídica. Jamais, porém, se deve trocar o conteúdo da verdade viva pelo conceito cínico e formal da verdade por causa dos perigos que o primeiro contém. Nada, portanto, de ingênua verdade transmutada de verdade viva!

Cada palavra vive e é originária de um determinado ambiente. A palavra em família é outra que no escritório ou em público. A palavra que nasceu do calor das relações pessoais se torna fria nos ares gélidos da publicidade. A palavra de ordem, que provém do serviço público, destruiria os laços de recíproca confiança em família. Cada palavra deve ter e continuar no seu lugar. Um dos efeitos da preponderância da palavra pública e nos meios de comunicação em geral é que, por vezes e às vezes, não se percebem mais, com clareza, o caráter e o limite das diferentes linguagens e que quase se destrói a peculiaridade da palavra pessoal. No lugar de palavras autênticas aparece o palavrório, as meias verdades, a mentira com a verdade, as fake news. Em muitos casos, não raro, as palavras não tem mais peso. Fala-se demais. Pior é e acontece quando se politiza a palavra. Quando os limites das diversas palavras se apagam, quando perdem suas raízes e seu habitat, a palavra perde também em verdade; aí a mentira se instala quase que inevitavelmente. Quando as diversas ordens da vida não se respeitam mais reciprocamente, as palavras se tornam falsas, fajutas, bagatelizadas. Vamos a um exemplo.

Um professor, certo dia, num certo lugar, numa determinada situação, pergunta a uma criança, diante da classe, se é verdade que seu pai, frequentemente, volta embriagado para casa. De fato é assim, mas a criança nega-o. A pergunta do professor colocou-a numa situação que ela ainda não tinha condições de enfrentar. Ela sente, apenas, que aqui aconteceu uma ingerência indevida na ordem da família que ela deve rechaçar. O que se passa na família não é da conta da classe de aula. A família tem seu mistério próprio que se deve preservar. O professor desrespeitou a realidade dessa ordem. A criança deveria achar, em sua resposta, um caminho que respeitasse, de igual maneira, a ordem da família e da escola. Ela ainda não tem capacidade para isso; faltam-lhe a experiência, o conhecimento e a habilidade da expressão correta. Ao responder negativamente a pergunta do professor, a resposta é enganosa, mas, ao mesmo tempo, expressa a verdade de que a família é uma estrutura sui generis em cuja intimidade não cabe ao professor penetrar, com autoridade auto justificada. Nós podemos qualificar a resposta da criança como mentira; mesmo assim, essa mentira contém mais verdade, isto é, ela corresponde mais à realidade do que se a criança tivesse revelado a fraqueza do pai em relação à bebida à classe. Proporcionalmente ao seu conhecimento, a criança agiu certo. A culpa da mentira recai unicamente sobre o professor. Uma pessoa experiente, no lugar da criança, poderia, ao repreender o interlocutor, ter evitado também a falta formal da verdade da resposta e achado a “palavra certa” para a situação. Mentiras de crianças e pessoas inexperientes, muitas vezes, decorrem do fato de estarem diante de situações que não dominam. Por isso, é de se questionar se faz sentido estender e generalizar, revestir de culpa, o conceito de mentira, que é e deve ser entendido como algo condenável em princípio, a tal ponto que coincida com o conceito de afirmação formalmente contrária à verdade. Aqui já se evidencia como é difícil dizer o que, afinal, é mentira. [Continua.]

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Pastor Airton Hermann Loeve

Pastor Airton Hermann Loeve – Igreja Evangélica da Confissão Luterana no Brasil (IECLB) – Lapa/PR.
Entre em contato com Pastor Airton Hermann Loeve: pastor.air.ton@hotmail.com